
Hoje cedo, enquando arrumava a cama e o café, passava na TV paga um filme bem antigo chamado "Meu pé de laranja lima", homônimo do livro que deu origem a ele, escrito por José Mauro de Vasconcellos.
Eu li esse pequeno livro quando tinha uns 11 ou 12 anos. Quem conhece sabe que se ler de qualquer jeito vai achar o livro bobo, chato. Se ler com o coração, vai se emocionar. Eu imediamente lembrei da minha infância e de como eu me identifiquei com o personagem principal de cara quando li o livro pela primeira vez.. e até hoje.
Zezé, 5 aninhos de idade, família pobre e numerosa, encontra num pequeno pé de laranja um confidente, um amigo, uma companhia que sempre estava lá, no mesmo lugar, quando ele precisava. Menino sapeca, vivia fazendo arte e apanhava dos pais que, já cansados de tanta pobreza e falta de esperança, descontavam na criança sua frieza com o mundo. Adultos e humanos, como todos nós. Zezé era sensível, chorava fácil e imaginava bem fácil também. Eu lembro de uma passagem do livro em que ele amarra uma meia velha da mãe e puxa com uma cordinha, quase matando uma mulher grávida de susto que, no escuro, achou que era uma cobra perambulando por lá. Zezé era criativo. Adorava poesia. Pediu um dia pra mãe lhe comprar um terninho, 'roupa de poeta', como ele dizia. Andava atrás de um trovador que cantava sucessos de Vicente Celestino e seus próprios sucessos. Zezé adorava. Achava tudo lindo demais.
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Quando criança eu tinha a imaginação bem fértil. Vivia sozinha. Meu irmão, mais velho, tinha seu próprio mundo e não o compartilhava comigo com muita freqüência. Minha mãe, divorciada, trabalhava o dia todo para pagar as contas de duas crianças. Meu pai, de longe, pagava algumas contas e nos buscava a cada quinze dias para passarmos um final de semana juntos. No meio disso, eu sonhava e imaginava cada coisa... Eu lembro do dia em que pedi uma câmera para minha mãe. Eu cismei com umas folhas que tirei das plantinhas do terraço do prédio onde morávamos e queria tirar foto delas bem de pertinho. Queria também tirar foto daquele papelzinho de alumínio que minha mãe jogava de lado quando abria um novo maço de cigarros. Minha mãe achou loucura comprar uma câmera pra isso! Loucura, menina! Que coisa mais estranha! Eu achava legal... Lembro também do dia em que peguei um potinho e passei dias e mais dias juntando gotinhas de um líquido branco que saía de outras plantinhas do terraço quando a gente partia elas no meio. Eu achava que ia acabar com a fome do mundo porque, afinal, lá tinha um montão de leite, ué! Minha mãe um dia achou o potinho, fedendo horrores, e me deu o maior cerão! Que loucura, menina! Coisa mais estranha!
Um dia, eu ganhei um gravador. Era um gravador da Gradiente, tinha um microfoninho do lado e a gente podia gravar qualquer coisa em fita cassete. Meu Deus. Aquilo era ouro pra mim. Um tesouro. Eu passava horas gravando tudo quanto era tipo de coisa. Por exemplo: Gravava a empregada da vizinha cantando enquanto limpava os vidros da varanda bem ao lado... Gravava a criançada brincando no Playground, gravava até bronca da minha mãe. Sei lá. Sabe que eu achava que aquelas palavras gravadas eram como tirar uma foto da pessoa? Eu gravava a minha voz e tentava descobrir por que eu achava a gravação tão diferente da minha voz mesmo. Aí eu descobri que o que vem de dentro pra fora é bem diferente do que vem de fora pra dentro. Sentimentos incluídos. Eu pensava muito, até demais pra minha idade. Mas, era bom. Eu aprendi muito com o mundo nessa idade. Na mesma idade do Zezé e até mais. Na verdade, eu ainda acredito numa verdade imutável: há que se manter uma parte da criança que fomos dentro do adulto que nos tornamos. O mundo fica mais suportável assim. Dá até vontade de abraçar o Zezé e pedir pra ele deixar a gente conversar um pouquinho com a árvore dele, né? Será que ele deixa?


