Eu perdi meu pai em fevereiro de 2009. Na época, fui pega totalmente de surpresa e passei um ano, quase, de luto. Um ano, aproximadamente, ajustando a nova situação na minha cabeça. Eu lembro que me apeguei tanto ao fato que tive que tatuar a data do falecimento dele nas minhas costas para não esquecer. Era um sentimento estranho, tipo, eu TINHA que lembrar da data sempre. TINHA que guardar o rosto dele, a voz dele, tudo. E eu me agarrei naquilo. Hoje, podem acreditar, já cogito até a possibilidade de mudar parte da tatuagem, mas ainda não.... Carrrrma...rs... Espera mais um tiquinho. Mas, é sinal que já me desapeguei um pouco de certos conceitos relativos à morte, correto?
Meu pai tinha uma casa na praia, aqui pertinho de SP. Casa gostosa, ventilada, varandona ampla. Essa casa fez parte da minha infância em peso. Íamos para lá com meu pai quase sempre. Passávamos a metade das férias lá com ele. Lá eu peguei 'bicho de pé', peguei 'bicho na bunda' de ficar sentada na água por horas... tive 'otite, amigdalite'... e várias outras coisas resultantes de passar horas e horas na água, na praia, no vento, tomando picolé e comendo areia. Meu pai curtia demais. Os adultos jogavam pelada, faziam campeonato de Bocha e bebiam cerveja debaixo dos guardas-sóis... Era sinônimo de verão e férias com farofada mesmo, sem pudor. Era bom. Era leve. Com a adolescência veio o nosso distanciamento, de meu pai e eu, e passamos a nos ver menos. Eu tinha minha vida longe dele e ele tinha a dele longe de mim. Ele continuava indo pra praia e eu já não via tanta graça. Os longos meses foram substituídos por vez-ou-outra-ou-um-dia-de-churrasco-ou-aniversário-bate-e-volta... Nada de dormir lá, nada de ficar tempo de mais. Eu ia, passava o dia, e voltava, invariavelmente em dias de aniversário do meu pai ou da mulher dele ou do sogro... Mas, continuava bom. Aquela casa respirava o meu pai, era impressionante! Ele não parava... andava de um lado pro outro, arrumava o jardim, arrumava as telhas (aliás, um dia ele caiu do telhado e teve 5 costelas quebradas, mas um dia eu conto isso...ahahahaha). Ele adorava lá. Vender? Nãããão... nãããão... jamaaaaaais, ele dizia meio cantando, meio risonho e meio bravo. A ambiguidade em forma de homem.
Então ele morreu. A casa ficou pra mim. E eu cuidei dela com zelo e atenção por mais de um ano, desde então. Cuidei. Arrumei uma faxineira, caseiro, fui umas 2 vezes, no máximo. É. Isso. Não consegui. Não consegui manter o mesmo cuidado e amor que ele tinha. Os gastos com a casa são imensos e o peso dela, nos meus ombros de 27 anos, parecem demais... Eu não dei conta e resolvi vender a casa essa semana. Ontem fui resolver os assuntos burocráticos dessa decisão e me dou conta de que vender a casa da praia é como arrancar o esparadrapo de uma vez da pele da gente, arrancando pele e pelo tudo junto no caminho. Estou me perdoando por essa decisão, não se trata de falta de sensibilidade! Eu tentei... mas, realmente, não tenho o mesmo pique que meu pai tinha de manter a casa viva... A casa morreu com ele, está silenciosa, calada, sem cor. Torço para que, um dia, ela se encha de vida novamente! Que se encha de crianças correndo pra todos os lados novamente! Como era em outra vida... Assim espero.

Ai Re que post lindo! Eu te entendo, te entendo em todos os sentidos! Também espero que a casa se encha de vida um dia!! Bjos
ResponderExcluirOi Renata! Olha como as coisas são... vc falando do desapego em momento muito propício. Minha mãe acaba de vender a casa da praia do meu avô. Fez isso após 30 anos de seu falecimento. É claro que curtimos muito a casa nesses anos todos, mas o apego à ela nos impediu de vender antes. O que vale carregar não pesa, não ocupa espaço...
ResponderExcluirBjos, estou te seguindo
Anne
mammisuperduper.blogspot.com
Aconteceu uma coisa parecida comigo, mas diferente, enfim.. Se quiser eu conto, mas a história é longa. rsrs
ResponderExcluirSeu pai curtiu a casa, você curtiu a casa, agora é deixar outra família curtir a casa...
Beijão!
(Estou esperando a sua lista de 51 coisas, fiquei curiosa.)
Sabe que, apesar de provavelmente ter sido uma decisão difícil, tô te achando mais leve?? Adorei a comparação com o esparadrapo, é bem assim mesmo... tem hora que temos simplesmente que arrancar o que não está mais dando certo. Sábia decisão. Que a casa ganhe vida outra vez.
ResponderExcluirbjos
Tenho uma ligação muito forte com o meu pai, e não posso nem imaginar passar por isso que já fico assim, em lágrimas!!!
ResponderExcluirTemos uma Fazenda no interior de SP e hoje em dia ele fica mais lá do que aqui. Já pensei várias vezes como seria uma situação dessa. Ir lá sem ele vai ser uma das coisas mais difíceis que um dia eu vou ter que fazer na vida...
Bjinhos
Mummy Brown, thankssssssss
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Anne, obrigada!
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Kah, conta conta conta!!!!
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Sá, eu estou mais leve messsssmo. :))
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Juliana, mas vc consegue... acredite.
Aproveite enquanto a vida deixa!
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