sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

A Jornada (Interna e Externa) de Quem Trabalha em Casa

Sou tradutora.
Sou tradutora freelancer.
Sou tradutora freelancer e trabalho em casa.
Isso já faz um tempo... Saí da faculdade e fiquei aproximadamente 3 anos em empresa, vim pra casa, voltei pra empresa e agora estou em casa novamente... Quem é tradutor ou conhece algum sabe que esse deslocamento é inevitável. Chega uma hora que não vale mais à pena trabalhar em empresa. Chega uma hora que a casa da gente acaba mesmo se tornando nosso ganha-pão indireto. Porque, claro, eu tiro vantagem do meu conforto para aumentar meu poder de concentração - tão necessário para o meu trabalho. Fim.
Mas, essa escolha de profissão tem muitos lados ambivalentes.

Muitos já me disseram "Nossa, que sorte a sua trabalhar em casa! Delícia! Uhuuu", mas a coisa não é bem assim. É preciso desenvolver uma certa disciplina para isso. É preciso, sim, seguir horários, prazos e ter mínimo de bom senso para não 'farrear' mais do que trabalhar de fato. No começo, é mais difícil. A gente pena para encontrar nosso ritmo. O quanto rendíamos na empresa é bem diferente do que passamos a render em casa... Depois desse período de adaptação, a gente passa a determinar limites internos, horários de pausa bem pessoais e necessários e a coisa vai andando. Sim, eu faço meu próprio horário e isso não tem preço. Confesso que diariamente tenho conflitos de ex-corporativa. Por exemplo: penso na vantagem imensa de ter benefícios, certa estabilidade financeira, poder usufruir - hoje - de licença maternidade remuneradinha.... Mãs... Penso no lado do conforto, no ganha-pão de pijama, no dormir até a hora que eu escolho de acordo com meus projetos... Isso é único, sim, ainda mais numa cidade maluca como São Paulo.

Acontece que ando tendo alguns conflitos. Isso não é coisa recente, é coisa de uns 2 anos pra cá - pelo menos.
Além do meu conflito profissional velho-conhecido (eu juro que procurei uns posts que já havia escrito sobre, mas não achei! Faz assim - quem achar que vale, dá uma lidinha nas postagens anteriores a essa minha fase monossilábica, tá?) eu tenho um conflito familiar. Calma, tchô explicar:

Hoje, grávida, sei que Heitor precisará de mim em casa por um tempo, até que a dinâmica natural me faça voltar ao centro e repensar as bordas... Repensar o futuro. O tempo meio que pára para nós e tem que andar para eles e a gente sabe que terá que ajudar um novo ser a atravessar a ponte entre ele mesmo e o seu mundo; entre nós e o nosso mundo. Cada um tem um plano, um prazo. Algumas mamães tem que seguir a licença maternidade, outras saem do emprego, outras, como eu, ficam #MEI-ALI-MEI-AQUI... Desde o início do meu relacionamento com o Beto, fiz meu pezinho de meia e, com algumas ajudas externas, me preparei financeiramente para ficar, pelo menos, 2 anos em casa com ele e depois, com o pitoco na escolinha, retomar meu plano de reviravolta profissional; talvez iniciar uma outra graduação... Ok, perfeito. Isso está sendo executado desde já. Marido a postos...rs.

Porém, para mim, o FICAR EM CASA tem dupla conotação, correto? Ficarei eu em casa sem nenhum trabalhinho (consequentemente, sem nenhum ganhinho $) ou depois de um tempo inicial (6/7 meses) posso voltar a pegar alguma coisinha por aqui mesmo? Continuar na mesma área, ao menos até o prazo de 2 anos do Heitor...

Bom... 

Eu passei por três fases de trabalho em casa:
1) Trabalhava em casa e ainda morava com a minha mãe.
2) Trabalhava em casa e morava sozinha.
3) Trabalhava em casa e morava com o Beto/marido atual/companheiríssimo.

Confesso que a fase nº 2 era a mais confortável, pois eu realmente não tinha ninguém que dependesse de mim, da minha atenção. Era uma fase livre. Nem melhor, nem pior - diferente. A fase atual atrapalha um pouco o andamento do meu trabalho, uma vez que o horário do marido é flexível também. É duro ficar 8 horas na frente de um computador com trabalho de casa para fazer ou com alguém que demanda certa atenção, correto? E com Heitor, então?? Mais atenção ainda... É claro que o Beto me ajuda - e muito! Tenho faxineira 2 x na semana e ela aumentará seus dias aqui depois do nascimento do pequeno.... Uma pessoa de extrema confiança que me conhece já desde bem antes da fase nº1... Ou seja, vale ouro. 

Perceberam o conflito?

O desabafo tem conclusão, calma... -> Decidi desencanar disso agora. Só saberei na hora H mesmo. Só saberei se Heitor me dará umas horinhas para algum projeto na hora. Conheço duas pessoas que são freelancer e conseguiram organizar casa e trabalho com um nenê disciplinado para isso. Conheço quem me diz ser impossível. Vejam bem - o trabalho não consumirá meu dia como um todo! A agência em questão (que passa alguns projetos) sabe que terei menos tempo, diminuirei a quantidade de trabalhos... Super legal, ok. O trabalho, mesmo que esporádico, me ajuda a manter o foco, ajuda nas despesas pequenas de casa (já que o Beto segurará a onda nesses meses todos)... Mas, pode ser que eu ache tudo isso dispensável e pense apenas em retomar a profissão depois que o pequeno esteja mais independente. É bom saber que tenho as duas opções. 

p.s. O que motivou o post foi: Marido hoje em casa interrompendo meu trabalho - sem querer, sem perceber... Marido que sente certo distanciamento entre nós quando eu estou o dia todo no escritório terminando um projeto grande para segunda-feira e ele quer almoçar junto - não posso hoje. Porque seria mais fácil compreender se eu estivesse na rua, horário comercial. Certo? Eu entendo que não é fácil lidar com o nosso tipo de trabalho. Não é um trabalho de criatividade. É um trabalho de isolamento. Quieto. Por isso, minha revolta/raiva atitude com o marido hoje foi conversar sobre. Ele, muito fofo, pede mil desculpas e fica no cantinho dele. Eu, trabalhando, me preocupo com a casa e com ele e com meus outros papéis num mesmo ambiente de trabalho/conforto... Tudo indica que será difícil dividir tudo isso com um baby, mas não impossível... Veremos, né não? Sei que muitas devem pensar: Ah, se você não precisa do dinheiro para bancar a casa, isso seria dispensável... Bom, não é bem assim... Simplesmente largar os contatos profissionais de tradução que tenho hoje me deixará para trás... E pode ser uma saída sem volta...
Obrigada por ler até o fim! Até eu cansei de mim.... ufa...


4 comentários:

  1. Oi, Re!
    Deixa ver se conheço alguém...hehe.
    Entendo seu conflito. Realmente todos acham que trabalhar em casa é só alegria, o que, vc sabe, não é bem assim. Ainda mais quando se tem que fazer uma pausa, seja por ter que dedicar mais tempo a um bebê, por estar doente ou simplesmente para tirar férias. Nesses momentos, o $ certo faz uma imensa falta. Maaaas, depois de passar pelas diversas modalidades freelance e pesando os prós e os contras, ainda prefiro ficar em casa. Nada paga fazer meus horários, não ter que me preocupar se tem trânsito, se está chovendo, se está rolando greve... Acho que depois que o Heitor chegar vc vai descobrir o esquema que é melhor pra vocês.
    Bjo!
    PS. Sim, maridos se sentem excluídos e fazem beicinho quando vc não pode dar atenção porque está com um prazo apertado. E não param de falar!! Haja concentração!

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  2. Rê, relaxa e espera pra ver o que Heitor lhe trará. Talvez ele seja um bebê super tranquilo e dorminhoco, mas talvez você sinta necessidade de viver intensamente essa dependência mutua! Eu também trabalho em casa há muito tempo, antes mesmo de casar, e tentei trabalhar com a Laura novinha (dois meses!), mas não deu! Estou voltando (ainda) aos poucos, e sabe o que? Percebi que essa fase de stand by foi uma das mais produtivas da minha vida! (Olha, segunda defenderei meu memorial num concurso público - com o qual sempre sonhei - e esse tema está super presente na minha cabeça. Torça por mim!)

    Beijos

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  3. Oi Re! Nossa, to atrasada nos seus posts... Não tô conseguindo comentar em vários blogs lá no trabalho, é um saco!!
    Bom, sobre maternidade x trabalho, sei como é trabalhar como freela, sei como é trabalhar em empresa, e sei como é ser tradutora! Por que será? :P
    Pela experiência que tive, se estivesse grávida hj faria o que vc está fazendo: ficaria em casa um tempo. Quando Bento era pequeninho, eu ainda conseguia pegar alguns freelinhas esporádicos quando minha mãe ia me ajudar. Achava importante não apenas pela grana, mas para se manter no mercado e não perder tanto o ritmo. Como vc terá ajuda da faxineira e provavelmente da sua mãe/sogra, acredito que será possível pegar alguns trabalhos - claro, se vc quiser.
    Mas tudo a seu tempo. Quando Heitor nascer, vc e ele terão que se adaptar um ao outro, aos horários, à rotininha. Aí sim vc poderá ver se conseguirá trabalhar ou não, se vc se sentirá muito cansada para qualquer outra coisa além de cuidar dele...
    Por enquanto, o que vc fez guardando grana e se programando está ótimo. Vai trabalhando enquanto der e curta a barrigola!
    beijos

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  4. Nossa, estou nesse dilema desde o 5ºmês do Gui.
    Não sei o que fazer, e ele já está com 9 meses.

    Sou convocada para os testes nas empresas e falto. Sou técnica eletricista, e os horários são de turno: trabalha 2 dias 12h e folga 2. Mas sábado e domingo também conta. E marido trabalha 4 dias 12h e folga 4. Doideira total. Segunda agora terei uma prova, será que meu consciente vai boicotar?!!!


    ó dúvida. Não aguento mais pedir dinheiro pro marido. Sempre tive meu dindin até engravidar e terminar meu estágio. Tem um ano. De certa maneira estou sofrendo horrores com isso. Merece um post hahahah mas e a coragem ... hehehe

    ai, beijão na barriga:)

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