quinta-feira, 13 de outubro de 2011

A Reza

daqui
Acho que meu pai foi grande influência religiosa para mim, se não a única. Era importante para ele. A gente estudava em escola de freiras por vontade dele. Foi batizado, crismado e etc por vontade dele. A gente ia com ele à missa sempre que estávamos juntos (e ele ia à missa do domingo cedinho, viu? ai, como eu adoraaava acordar as 7am em plenos 15 aninhos de existência). Tinha que ir. Era importante, ele prezava demais. Desde sempre lembro dele com santinhos guardados na carteira, velhos e gastos de tanto usados (ele também sempre tinha um a mais pra distribuir). Desde sempre lembro dele com um livrinho de cabeceira, rezando baixinho sempre antes de dormir. "Eu sempre rezo pela proteção sua e do seu irmão nesse mundo absurdo, horrível, perigoso!", dizia ele. Eu não entendia. Achava exagero, mas também achava legal. Ficava feliz. Lembro também das suas idas à Aparecida - SP, onde tem o santuário da padroeira. Ele fazia promessa e mais promessa. Prometia até pelos outros. Dizia: "Renata, vamos em Aparecida esse final de semana, viu? Eu pedi para que você arrumasse um emprego e você conseguiu! Agora você tem que ir comigo lá rezar sei lá quantas Ave Marias e quantos Pai Nossos para pagar a promessa que eu fiz para você". Ok, íamos. Eu ainda reclamava, no auge da minha rabujice adolescente. "Pô, pai!". Ele ria. Tinha um bom humor e paciência invejáveis. Mas, eu ia. Quem virava as costas para ele? Ninguém. Ele era consideravelmente persuasivo e simpático (apesar de bem fechadão). Tinha aquele jeito bonachão, despachado e calado.
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Mas, o que eu quero dizer aqui é que hoje entendo meu pai. A gente teme demais pelos filhos e é bom (a meu ver, tá? sem demagogia) confiar na religião. Poder acreditar. Dele eu herdei, dentre outras coisas, esse apego pelos santinhos e as rezas no final do dia. Não tem uma vez que coloque Heitor no berço a noite sem rezar alguma coisinha por ele, por nós. Eu tive, sim, a fase de questionar a religião e abominar o catolicismo e etc e tal. Ainda critico tudo com certo conhecimento de causa, mas também me entrego ao inexplicável, ao místico (por que não?). Afinal, eu preciso confortar meu coração de vez em quando, assim como meu pai precisava.
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O mundo parece mesmo bem hostil para os nossos pequeninos e pequeninas. O mundo sempre estará aquém do filho da gente, né? Sempre deixará de fazer jus ao coraçãozinho deles. E a gente, eu acho, tentará continuamente remediar tudo de um jeito ou de outro, nem que seja com uma oração solitária no final do dia na ausência dos nossos filhos já crescidos, pedindo com todas as nossas forças que tudo dê certo para eles, que o mundo se abra como uma concha e que eles encontrem as pérolas lá no meio. Sempre. Invariavelmente sempre.

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