
Há mais ou menos duas semanas, decidi botar em prática de vez um projeto antigo de ajudar um Orfanato. Mas, tinha que ser orfanato, não creche nem nada. Tinha que ser criança sem família, ou, como no caso, crianças afastadas da família por medida judicial ou pelo que quer que fosse. Crianças realmente numa situação em que eu já estive um dia, pois, como alguns sabem, fui adotada pequenininha e tive uma família sólida e presente graças a esse ato de amor. Assim, eu queria devolver essa graça recebida, dar de volta ao mundo, fazer a energia circular. E deste modo foi.
Eu enrolei durante anos. Por anos procurava um lugar, e, quando achava, tinha medo de ir. Medo de sentir pena, de chorar, medo de não ser aceita, medo de não conseguir ajudar como gostaria. Um dia desses resolvi parar de enrolar e ir em frente. Encontrei uma casa e fui primeiro lá pra ver de perto as necessidades reais do lugar e descobri uma casa cheia de amor e repleta de carências também. Dezessete pequenos de 0 a 8 anos morando ali, com comida, escola, assistência médica, psicológica... Dezessete pequenos sem lar provisoriamente ou permanentemente, em busca de uma nova família. Depois de conversar durante horas com a psicóloga de lá, tive a certeza de que estava no lugar certo. Voltei lá duas semanas depois e assim foi.
A psicóloga me disse que finais de semana sempre vai gente lá, voluntários de época não faltam, principalmente para trabalhos de faculdade. Agora, durante a semana... Como meu trabalho tem me permitido, fiquei de ir toda quarta-feira e ficar lá das 8:00 às 12:00. A idéia inicial, apoiada pela psicóloga, era de dar aulas de inglês para os maiores, três, alias: uma menina de 6 e dois meninos de 8 anos.
No dia anterior eu estava aflita. Não sabia o que esperar. Estava empolgada com as aulas, montei tudo direitinho, fiz pesquisas, comprei livros novos... Meu medo era de encontrar crianças fechadas pro mundo, de certa forma agressivas, acuadas.
Quando cheguei, eles ainda não estava acordados e ajudei com os menores. Troquei fraldas, coloquei roupinha nova, e olha que me saí hiper bem (modéstia a parte)! Mas, a verdade é que fui bem ingênua e a realidade me deu um banho de água congelada.
Os três são lindos, crianças maravilhosas, mas que precisam mais de um acompanhamento escolar atual do que aulas de inglês. São nitidamente subnutridas, subdesenvolvidas e com o lado cognitivo bem pouco trabalhado. Inquietas, falavam as três comigo ao mesmo tempo. Tia, Tia, Tia. Eu tinha que pedir calma em alguns momentos e até dar uma chamada de atenção naqueles mais atrevidos ou pouco disciplinados. Porém, vi no olhar deles a carência de atenção. E vi o ponto em que tenho que focar: seu gosto pela leitura, escrita, pela escola e pela casa onde moram... Mais tarde a dona da casa me elogiou e agradeceu e pediu atenção mais acentuada para os maiores. Os menores sempre têm mais atenção, são mais fofinhos, os voluntários, em sua maioria, vão sempre pro lado deles e os maiores ficam de lado. Essa quarta-feira foi a primeira, outras virão e escreverei relatos mais informativos. O primeiro é apenas para mostrar minha dificuldade em contar tudo que vi, colocar tudo em palavras. Impossível. Logo vem mais.
p.s. Não sei se posso divulgar o nome da casa, verei isso. Mas, se alguém quiser ajudar, é só mandar um email que passo as infos, tá? Beijussss!
Imagem by Anne Guedes.