Sou tradutora.
Sou tradutora freelancer.
Sou tradutora freelancer e trabalho em casa.
Isso já faz um tempo... Saí da faculdade e fiquei aproximadamente 3 anos em empresa, vim pra casa, voltei pra empresa e agora estou em casa novamente... Quem é tradutor ou conhece algum sabe que esse deslocamento é inevitável. Chega uma hora que não vale mais à pena trabalhar em empresa. Chega uma hora que a casa da gente acaba mesmo se tornando nosso ganha-pão indireto. Porque, claro, eu tiro vantagem do meu conforto para aumentar meu poder de concentração - tão necessário para o meu trabalho. Fim.
Mas, essa escolha de profissão tem muitos lados ambivalentes.
Muitos já me disseram "Nossa, que sorte a sua trabalhar em casa! Delícia! Uhuuu", mas a coisa não é bem assim. É preciso desenvolver uma certa disciplina para isso. É preciso, sim, seguir horários, prazos e ter mínimo de bom senso para não 'farrear' mais do que trabalhar de fato. No começo, é mais difícil. A gente pena para encontrar nosso ritmo. O quanto rendíamos na empresa é bem diferente do que passamos a render em casa... Depois desse período de adaptação, a gente passa a determinar limites internos, horários de pausa bem pessoais e necessários e a coisa vai andando. Sim, eu faço meu próprio horário e isso não tem preço. Confesso que diariamente tenho conflitos de ex-corporativa. Por exemplo: penso na vantagem imensa de ter benefícios, certa estabilidade financeira, poder usufruir - hoje - de licença maternidade remuneradinha.... Mãs... Penso no lado do conforto, no ganha-pão de pijama, no dormir até a hora que eu escolho de acordo com meus projetos... Isso é único, sim, ainda mais numa cidade maluca como São Paulo.
Acontece que ando tendo alguns conflitos. Isso não é coisa recente, é coisa de uns 2 anos pra cá - pelo menos.
Além do meu conflito profissional velho-conhecido (eu juro que procurei uns posts que já havia escrito sobre, mas não achei! Faz assim - quem achar que vale, dá uma lidinha nas postagens anteriores a essa minha fase monossilábica, tá?) eu tenho um conflito familiar. Calma, tchô explicar:
Hoje, grávida, sei que Heitor precisará de mim em casa por um tempo, até que a dinâmica natural me faça voltar ao centro e repensar as bordas... Repensar o futuro. O tempo meio que pára para nós e tem que andar para eles e a gente sabe que terá que ajudar um novo ser a atravessar a ponte entre ele mesmo e o seu mundo; entre nós e o nosso mundo. Cada um tem um plano, um prazo. Algumas mamães tem que seguir a licença maternidade, outras saem do emprego, outras, como eu, ficam #MEI-ALI-MEI-AQUI... Desde o início do meu relacionamento com o Beto, fiz meu pezinho de meia e, com algumas ajudas externas, me preparei financeiramente para ficar, pelo menos, 2 anos em casa com ele e depois, com o pitoco na escolinha, retomar meu plano de reviravolta profissional; talvez iniciar uma outra graduação... Ok, perfeito. Isso está sendo executado desde já. Marido a postos...rs.
Porém, para mim, o FICAR EM CASA tem dupla conotação, correto? Ficarei eu em casa sem nenhum trabalhinho (consequentemente, sem nenhum ganhinho $) ou depois de um tempo inicial (6/7 meses) posso voltar a pegar alguma coisinha por aqui mesmo? Continuar na mesma área, ao menos até o prazo de 2 anos do Heitor...
Bom...
Eu passei por três fases de trabalho em casa:
1) Trabalhava em casa e ainda morava com a minha mãe.
2) Trabalhava em casa e morava sozinha.
3) Trabalhava em casa e morava com o Beto/marido atual/companheiríssimo.
Confesso que a fase nº 2 era a mais confortável, pois eu realmente não tinha ninguém que dependesse de mim, da minha atenção. Era uma fase livre. Nem melhor, nem pior - diferente. A fase atual atrapalha um pouco o andamento do meu trabalho, uma vez que o horário do marido é flexível também. É duro ficar 8 horas na frente de um computador com trabalho de casa para fazer ou com alguém que demanda certa atenção, correto? E com Heitor, então?? Mais atenção ainda... É claro que o Beto me ajuda - e muito! Tenho faxineira 2 x na semana e ela aumentará seus dias aqui depois do nascimento do pequeno.... Uma pessoa de extrema confiança que me conhece já desde bem antes da fase nº1... Ou seja, vale ouro.
Perceberam o conflito?
O desabafo tem conclusão, calma... -> Decidi desencanar disso agora. Só saberei na hora H mesmo. Só saberei se Heitor me dará umas horinhas para algum projeto na hora. Conheço duas pessoas que são freelancer e conseguiram organizar casa e trabalho com um nenê disciplinado para isso. Conheço quem me diz ser impossível. Vejam bem - o trabalho não consumirá meu dia como um todo! A agência em questão (que passa alguns projetos) sabe que terei menos tempo, diminuirei a quantidade de trabalhos... Super legal, ok. O trabalho, mesmo que esporádico, me ajuda a manter o foco, ajuda nas despesas pequenas de casa (já que o Beto segurará a onda nesses meses todos)... Mas, pode ser que eu ache tudo isso dispensável e pense apenas em retomar a profissão depois que o pequeno esteja mais independente. É bom saber que tenho as duas opções.
p.s. O que motivou o post foi: Marido hoje em casa interrompendo meu trabalho - sem querer, sem perceber... Marido que sente certo distanciamento entre nós quando eu estou o dia todo no escritório terminando um projeto grande para segunda-feira e ele quer almoçar junto - não posso hoje. Porque seria mais fácil compreender se eu estivesse na rua, horário comercial. Certo? Eu entendo que não é fácil lidar com o nosso tipo de trabalho. Não é um trabalho de criatividade. É um trabalho de isolamento. Quieto. Por isso, minha revolta/raiva atitude com o marido hoje foi conversar sobre. Ele, muito fofo, pede mil desculpas e fica no cantinho dele. Eu, trabalhando, me preocupo com a casa e com ele e com meus outros papéis num mesmo ambiente de trabalho/conforto... Tudo indica que será difícil dividir tudo isso com um baby, mas não impossível... Veremos, né não? Sei que muitas devem pensar: Ah, se você não precisa do dinheiro para bancar a casa, isso seria dispensável... Bom, não é bem assim... Simplesmente largar os contatos profissionais de tradução que tenho hoje me deixará para trás... E pode ser uma saída sem volta...
Obrigada por ler até o fim! Até eu cansei de mim.... ufa...