quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa

“Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre. Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida.”
Fernando Pessoa

Quando penso na palavra ‘mudança’, lembro de uma música (mais recitada do que cantada) do Oswaldo Montenegro, que diz:

Não pense que o mundo acaba
Ali onde a vista alcança
Quem não ouve a melodia
Acha maluco quem dança
Se você já me explicou
Agora muda de assunto
Hoje eu sei que mudar dói
Mas não mudar dói muito.
[...]
A natureza não precisa de arte
O amor não precisa do poeta
Às vezes, é o porto que parte
E é o alvo que procura a seta
Talvez seja filosofia
Talvez seja falta de assunto
Mas não há quem dirá (quem diria)
A verdade só, só junto
Que junto a verdade aparece
E ser só metade é ser só
E só quem amou sabe disso
Gigante olha a pedra e vê pó.

Algumas frases me tocam mais do que outras, como é o caso da frase ‘mudar dói, mas não mudar dói muito’. Para mim, essa frase resume o processo doloroso e complexo que é viver. Já disseram um dia que morrer é fácil, difícil é permanecer vivo e feliz no mundo, ativo e presente na vida de si mesmo e de outros. É difícil, sim, porque nada é para sempre igual e o ser humano foi criado sem a capacidade de lidar facilmente com mudanças constantes. Assim, nossa espécie desenvolveu avançados métodos de rotulagem, classificação e planejamento, visando manter a vida cristalizada e imutável. Besteira. Impossível.
Quando entrei na faculdade de Letras eu aprendi um pouco mais sobre a vida. E segui aprendendo novos conceitos com escritores e mestres maravilhosos e desaprendendo com eles na mesma intensidade. Tive uma professora de Linguistica que nos ensinava a teoria da linguagem com base no princípio de que ‘temos que desconstruir o que era antes para entender o que é hoje’ e isso, por si só, já me transportou para um mundo novo naquela época. E, ao mesmo em que me transportava, machucava e doía também. Doía porque mudava.
A cada novo ensinamento, nós aprendíamos como destruir o pensamento anterior e transformá-lo em novo e isso era perturbador. Não pensem que desconsiderávamos os pensadores anteriores, nunca. Mas, nunca poderíamos nos APEGAR a eles de modo a restringir nossa visão da teoria da linguagem. Mesmo doendo, passei a ver a vida da mesma forma. E assim caminhei os quatro anos de curso.
Ao terminar, acreditava injenuamente que tinha descobrido a fórmula da felicidade e estava finalmente vivendo-a a cada minuto. Doce ilusão. Foi só sair da faculdade, que um sentimento de luto me invadiu por completo. O medo de sair da universidade e cair num mundo novo era imenso. Eu ainda não havia compreendido por completo o processo de mutação da vida...
Minha vida seguiu (blá blá blá, trocentos acontecimentos...) e, em fevereiro de 2009, perdi meu pai. Eu perdi a referência física que tinha dele e isso me devastou. A morte é a mudança derradeira, a prova final de que nada é para sempre igual, aliás, nada É para sempre. Nada nem ninguém. Meu pai morreu em consequencia de um ataque cardíaco fulminante depois de um possível assalto num farol qualquer. Ele se assustou, arrancou com o carro, e sua mulher o convenceu de que tinham que ir a um hospital. Ainda nesse momento, mesmo com dor no peito, ele pensava que nao era nada. Exagero, besteira.
Uma hora depois, ele não respirava mais e todos nós, boquiabertos, comparávamos horários em que havíamos falado com ele pela última vez, frases que ele havia dito. Pois, se eu havia acabado de falar com ele ao telefone, ele não poderia morrer de uma hora pra outra, não é mesmo? Não. Não é, não. Nessa época eu já nem pensava mais na teoria da ‘Desconstrução’ vista e revista na faculdade. Eu nem mesmo pensava que isso poderia bater de frente comigo na prática. Sim, poderia e aconteceu, assim como acontece com muitos outros da nossa espécie, muitas outras coisas no mundo de todas as espécies, conhecidas ou não.
E, vejam só, eu comecei esse post pensando que ia falar sobre uma coisa e acabei falando de outra. A vida é ou não é uma grande piadista?

[TO BE CONTINUED]

Um comentário:

  1. Nossa, muito forte esse post. Nem sei o que dizer... Que as mudanças são mesmo necessárias, mesmo que não queiramos passar por elas... que dói sim, principalmente porque nos fazem crescer... que a descontrução acontece mesmo, a cada ciclo novo que começamos... e que só temos uma dimensão mais precisa de tudo isso depois, quando voltamos a refletir sobre o que passou, ou quando queremos ensinar e repassar o que vivemos para outra pessoa (no meu caso, pessoinha ainda kkk). Vida em estado puro.

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