E a gente se torna mãe.
E não é no dia em que descobre a gravidez, não. E nem no dia em que o filho nasce e a gente vê ali um sonho materializado. Barulhento. Aterrorizante. Mágico. Lindo. Não. Não é assim, não. A gente se torna mãe aos poucos. É como se nos dessem peças de um quebra-cabeça sem revelar o desfecho, sem mostrar a imagem reconstruída para a gente se guiar. Aliás, sem mostrar é nada mesmo. A gente vai pegando cada peça e chora de desespero. Tenta encaixar uma na outra e nada... Às vezes, a gente encontra duas peças que parecem ser complementares... Dá uma forçadinha aqui, outra ali, e consegue encaixar. Ufa. Que alívio. Às vezes, a gente não encontra é nada. Outras vezes, a gente acaba tendo que montar mais uma parte do quebra-cabeças no breu mesmo, sem luz, sem companhia, sem direção. Outras, ainda, a gente consegue montar uma parte bem estensa sob o sol da segurança, buscando lá de dentro uma força que a gente nem sabia que tinha antes de enfrentar noites e mais noites em claro, recheadas de fraldas sujas e aquela incerteza que temos de que estamos no caminho certo.
É que simplesmente não tem ninguém que possa dizer "Está certo assim, está errado assado". Não tem nem como julgar! Cada um é cada um e nosso filho é nosso. NOSSO. A gente tem que passar por esse caminho assim mesmo, só.
A solidão sustenta a mãe mais do que suas duas pernas. A solidão de uma mãe é a sua grande lição. Porque o filho dela é único e ela tem que aprender com ele a cuidar de si e da nova família que se forma. Um aprende com o outro. É uma turma do Jardim I de dois alunos apenas.
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Desde que Heitor nasceu tem sido eu e meu marido 99% do tempo. Não tenho uma sogra e nem mãe presentes para nos auxiliar. Minha mãe é do tipo-pra-frentona-super-independente-vida-social-profissional-borbulhantes-sem-tempo-para-todo-o-resto. Tudo ao mesmo tempo agora. Minha sogra já não tem mais saúde, coitada. Minha renda e meu coração não comportam nem uma babá e nem um berçário. De modo que Heitor é nosso companheirinho 24/7. Pretendemos que assim continue até seus 2 aninhos, quando irá para uma escola e eu retomarei minha vida profissional (assim que eu descobrir onde ela foi parar - isso fica pra outro post). Isso foi considerado quando engravidei. Nós nos organizamos para gastar nosso pé-de-meia (e eu 100% do meu tempo) com os primeiros ano do nosso primogênito. E assim é. Isso não quer dizer que eu não dê os meus pulos para ganhar uma grana, mas sempre ao lado de Heitor. Eu ao lado dele e ele ao meu lado.
Tem sido assim desde sempre.
Eu escolhi assim de maneira consciente.
Mas, dói. Não é mole, não. Dói.
A maternidade dói mais do que eu jamais pude imaginar. Se me dissessem isso durante a gravidez, eu provavelmente ficaria puta da vida ou nem acreditaria. Riria da cara da pessoa. Como assim "dói"?? Sim. O dia-a-dia dói. A solidão. A madrugada escura. Os dias sozinha com ele enquanto meu marido precisa sair para a gente manter o mínimo de estabilidade financeira. Alguns dias são bons, outros são recheados de choros escondidos e sorrisos amarelos para que ele não perceba o meu desespero, a minha insegurança, o meu medo, a minha solidão.
A gente se sente deslocada do mundo. É como se o tempo tivesse parado para nós e seguido para todos os outros. As pessoas seguem vivendo e a gente pára. Não vive. Nos primeiros dias, lembro bem, eu sentia como se tivesse um plugue acoplado em mim. Uma extremidade em mim e outra no Heitor. Ele me sugava como quando ainda existia um cordão umbilical entre nós.
Ele vivia de mim e eu não vivia de nada.
E a gente ainda se sente culpada por ficar triste.
A gente se sente culpada por não estar feliz 100% do tempo. Mas, quem é feliz eternamente?? Ninguém, querida. Mas, a gente se cobra essa felicidade avassaladora, né?
Como se devêssemos isso ao nosso pequeno bebê.
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A gente deve a ele respeito e humanidade. A gente deve a ele amor real, sem mentiras. Transparente. Nem sempre chorei escondido do Heitor. Ele me viu chorar algumas vezes e, em sua imaturidade de um bebê de 4 meses, ele conseguiu apenas me olhar complacentemente. Ele entendeu, assim acredito. Ele se calou e vidrou em mim como se eu fosse o brinquedo barulhento mais legal do mundo. Como posso me sentir sozinha sendo que nunca mais estarei completamente sozinha na vida? Nunca mais. NUN-CA.
É essa presença constante, dependente ao extremo que assusta. É, ao mesmo tempo, o isolamento dos primeiros meses que nos deixa assim, meio que à deriva.
Mas, não dizem que tudo passa? Então essa fase passará também.
E eu sigo montando meu quebra-cabeças infinito feito sob medida para mim e só para mim... Desesperada? Sim, às vezes. Mas, amando. Sigo amando muito.
Tanto que até machuca.
Sim, machuca.
Como eu vivi sem essa loucura até hoje? Nem lembro. Nem sei mais responder.
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Amiga, que post lindo... inspiradíssimo! Simplesmente amei a primeira parte do texto, vc conseguiu colocar em palavras o que todas nós sentimos, to-das, em maior ou menor grau, com as variantes particulares de cada família. Perfeito.
ResponderExcluirAliás, vc já leu Laura Gutman? Estou lendo e é sensacional. Vou te mandar um trecho do começo do livro que fala mais ou menos sobre o que vc escreveu aqui...
bjão
PS: só pra lembrar: eu tenho 2 ombros pra vc se recostar, 2 braços pra te abraçar, 2 pernas pra correr pra sua casa, 2 orelhas pra te ouvir e um colo enorme se vc quiser...
O Heitor é tão lindo, Rê!!!
ResponderExcluirEu acho ele um fofo que só :)
Sinto que esses primeiros meses são mesmo turbulentos, muitas emoções e muitas peças soltas do quebra-cabeça, mas aos poucos vai melhorando, as fases vão mudando e vc vai tendo sua vida novamente, sem parecer que ele depende tto de você e você dele...
Ah, fiquei curiosa para saber a sua idéia sobre a "responsabilidade e o conhecimento" que eu falei lá em outro post. Pode falar sim, eu aguento :)
Beijos
Ju
Re, td bem? saudades de nossas trocas de ideias...menina,eu já chorei na frente do Pedro e ele fez o mesmo q Heitor. Se calou e ficou me observando...dai me senti mais culpada e beijei e o abracei pedindo perdão!!!!!!!! aloka mode on!!!!!!!!!!!!!!!!! bjobjo
ResponderExcluirAdorei o post e muitas vezes me sinto assim também. Incrível como a gente fica meio perdida, quer retomar nossa vida profissional mas ao mesmo tempo quer ficar junto dos nossos filhos... Complicadíssimo. Mas de qualquer forma, é preciso muita paciência, muito apoio... Me sinto muitas vezes sozinha também, mas aos poucos tudo retorna ao normal, espero. rsrs! Beijos
ResponderExcluirRenata, que lindo seu post. E por acaso você viu o tema que estamos abordando essa semana no Mamatraca? Solidão materna. Exatamente sobre isso que você escreveu. Hoje, inclusive, tem uma entrevista com a Laura Gutman, que a Sarah mencionou aí em cima.
ResponderExcluirDá uma olhada lá. É bom ver que não estamos sozinhas nessa solidão materna, né?
Beijos,
Roberta
www.mamatraca.com.br
www.meuprojetinhodevida.blogspot.com
Ahhh! que post incrível, é muito louco mesmo, porque é assim que eu me sentia também!
ResponderExcluirAprendi que para continuar vivendo é necessário deixar morrer.
A Anne que era só Anne, morreu. Para dar espaço àquela que invariavelmente é a mãe do Joaquim. Disso, eu não me livro mais... e é como vc disse. Como vivi sem??
Beijos!
Que lindo! Chorei, me vi nas suas palavras. Como pode existir um sentimento assim, diferente de TUDO! Essa coisa de "ter" que estar feliz o tempo todo é um saco! Estamos felizes, ok! Mas tb estamos cansadas, irritadas, perdidas, e muitas outras coisas que essa vida nova nos dá de presente...
ResponderExcluirParabéns!
Lindas as suas palavras. Me arrepiei com a honestidade e beleza delas.
ResponderExcluirBeijos.
O meu comentário é: Sem comentários.... a gente vive isso tudo mesmo, e eu nem sei falar sobre, senti, e por vezes ainda sinto isso tudo....Certamente a felicidade é maior que esses momentos, mas sim, eles existem e não sei falar sobre eles!
ResponderExcluirBeijos
Espetacular.. perfeito...... precisa continuar as osutras etapas d a vida do Heitor ,pois hoje eu sinto os meus pásssaros que ja voaram do meu domínio,mas sinto a mesma sensação!! Perfeitooooooooooo Muito refelexivo..... VOu usar e ste texto na minha creche com as minhas queridas mama~es de vários Heitores.. beijosss
ResponderExcluirRenata maravilhoso seu texto, posso repostar em meu blog com créditos e link para o seu? parabéns!!! meu email: aflaviaandrade@hotmail.com beijos! Ana www.girlsfromalphaville.com.br
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