sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Exercício de paciência

Sim.
Estou me tornando uma pessoa mais tolerante e paciente... cada vez mais... um pouquinho mais a cada dia...
Vou contar o causo aqui de casa e vocês vão compreender o que digo.
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Somos pais de primeira viagem e, como tais, muitas vezes nos vemos perdidos no meio do olho do furacão sem luz no fim do túnel para seguir. Bom, fato, quase todas as vezes... Acontece que eu estava começando a encarar a coisa como "eu que sei, eu que faço" e, consequentemente, tirando um pouco do espaço do meu marido, homem bom, participativo mesmo. Sujeito educado. Gente fina. 
Vejam bem...
Nos últimos tempos, eu disse sei lá quantos "nao é assim", trocentos "melhor eu fazer" e milhares "deixa quieto"... Ouvi de volta um sonoro "pô, deixa eu ser pai, também!".
Ui.
Deixo.
Tenho que deixar, claro! Eu estava indo pelo caminho errado...
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Acontece que é duro, sim, para minha natureza mandona e crítica, deixar quieto sem me meter nunquinha. Mãs... Eu estava deixando o sujeito acanhado, como eu não deveria e não teria o menor direito, não é mesmo! Minhas dicas:
- Deixe ele fazer. A criança aprende que mãe tem um jeito e pai tem outro e fim. O cara não vai matar a criança de fome e nem de frio e nem de tanto chorar. Se o pequenino chora e você acha que sabe o motivo (eu nunca tenho certeza), deixe ele (o pai) tentar exercitar esse lado e buscar alternativas para solucionar o problema junto com você! A palavra aí é 'junto'. Muitas vezes eu lascava um "é fome, certeza" e ele me olhava com olhos perdidos, iguais aos meus, e eu fingia superioridade de mãe que nem tenho... Entenderam? Cada dinâmica é uma, mas humildemente, assumo meu erro. Não posso impedir que ele faça uma vez que eu mesma nem sei direito como fazer a maioria das coisas! Que hipocrisia a minha... 
- Elogie! O pai precisa sentir que pode. Pode fazer o pequeno dormir. Pode ajudar na alimentação (se possível, claro), pode fazer a diferença. Ele não é um mero "buscador de fraldas, roupas ou esterilizador de mamadeiras". Não é empregado da mãe e da criança. Faz parte daquilo tudo. É tudo um complexo familiar único, entendem? Eu estava indo por esse caminho sem perceber...
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Outro dia eu estava tomando café e marido prontamente se ofereceu para ficar com o pequeno, que estava acordadão querendo ver o mundo a sua volta. Lá pras tantas, eu ouvi Heitor reclamar e deixei. Fechei meus olhos e deixei o papai resolver. Ele, aliás, o fez lindamente e eu realmente não precisava 'ensinar' nada, pelamor... Amor não se ensina, né?
Não é fácil porque a gente sempre acha que o nosso jeito é melhor, porque funciona melhor e é o mais certo para o pequeno. Não estou falando que não deve haver conversa e compartilhamento! Claro que sim. Estou contando apenas uma falha minha aqui em casa e um modo que eu achei de pegar leve com meu marido, com nosso casamento e com nosso filho. 

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Em tempo: OBRIGADA MIL VEZES pelo apoio nos comentários ao último post! Como me fez bem, como foi bom ter o apoio de vocês!!! Estou em dívida com a maioria dos blogs que sigo (aliás, até ganhei novos seguidores que eu prometo linkar logo logo!!), desculpem. Prometo tirar o atraso e voltar a comentar com mais regularidade :))))

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sábado, 30 de julho de 2011

O post mais difícil desde o início do blog

...ou... confissão sobre a construção do meu amor materno.
...ou... inseguranças e dores pós-parto.
...ou... momento 'desabafo' sem espaço para julgamentos.
...ou... post longo pra cacete.
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Vamos lá. Eu pensei e pensei demais antes de escrever esse post. Aliás, eu o escrevi mentalmente diversas vezes, organizei vários rascunhos, tive dúvidas sobre publicar tudo isso aqui ou simplesmente deixar passar, e finalmente decidi publicar. Por quê? Porque é importante para mim, para que eu possa fazer as pases com algumas escolhas nessa minha curta jornada pela maternidade. Para que eu possa fazer as pases comigo mesma e seguir em frente. Preciso. Preciso escrever e ler e acreditar que fiz o melhor que pude desde o dia zero até hoje e que meu filho, sendo meu anjinho precioso, merece esse melhor de mim.
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Heitor nasceu antes do previsto e tudo foi bem corrido. Nada organizado. Bem a minha cara. Típico. Minha vida condiz com essa classe de acontecimento e com meu filho não poderia ser diferente. Mas, eu me frustrei. Essa foi a primeira frustração da minha breve atuação como mãe e posso dizer que foi quando fui pro inferno a primeira vez, como diria Renato Russo. Foi a primeira ruptura entre o que eu havia idealizado e o que havia, de fato, ocorrido. Eu nunca fui obcecada por Parto Normal. Nunca fui obcecada por Cesariana. Nunca fui extremista. Acreditava no meu médico e ele acreditava em nós, de modo que eu desejava apenas que Heitor estivesse pronto para nascer, ou seja, queria entrar em trabalho de parto. Meu filhinho estaria pronto, e então veríamos como proceder. Não rolou. Esse 'primeiro inferno' foi o pensamento de que meu filho seria retirado do seu cantinho antes do tempo, assim, na marra, sem preparo para ele e nem para mim. Morri ali, às 15:19hrs do dia 24/06, quando ele nasceu. Eu chorei quando ele veio ao mundo e o beijei com carinho, mas não senti amor. Talvez pela anestesia, talvez pela ansiedade e medo de que algo desse errado. Chorei de alívio e ele estava entre nós finalmente.
As horas seguintes foram turbulentas. Tive conflitos com a minha mãe, que deu conselhos e fez comentários que corroboraram para as escolhas que fiz a seguir também. Tive conflitos comigo mesma. Chorei demais. Sofri. Estava anestesiada na alma também. Enquanto meu filho foi levado para longe para que exames fossem realizados e aquela coisa toda, eu não senti sua falta. Não o desejei. Não pensava nele. Não pensava nem em mim. Talvez quem esteja lendo, chegue nessa parte e diga 'certeza que ela sentiu tudo isso - ou não sentiu - por causa da cesariana'. Não. Não acho. O parto foi ok, tudo lindo. Não achei a pior coisa do mundo, não achei desumano demais como li por aí e nem feriu meus sentimentos de mãe o fato específico de ter feito uma cirurgia para que meu filho pudesse nascer. A frustração foi a idéia dele não estar preparado e sofrer além do necessário, porque a ruptura ao nascer é 'de praxe' mesmo, eles tem de passar por isso. 
E ele passou com louvor.
Nasceu lindo, perfeito e grande. Apesar da prematuridade (36 semanas e 4 dias), não ficou em UTI, não teve desconforto respiratório, nada grave. 
Quando ele chegou até mim, no quarto, eu o peguei no colo e beijei-lhe a face vermelhinha, mas algo estava faltando ainda em meu coração. Eu não o amava ainda 'como deveria'. Como deveria? É. Eu comprei a idealização do amor instantâneo pós-parto e carreguei-a comigo sem nem me dar conta. O resultado foi uma mãe frustrada novamente, dessa vez por não corresponder a suas próprias expectativas sentimentais (eu havia esquecido que amor não tem padrão, cada um sente como deve sentir e pronto). 
Já disse antes que sou lenta para demonstrar sentimento. Isso se deve ao modo como fui criada e a minha personalidade mesmo, claro. Quando Heitor foi levado ao meu quarto, eu senti carinho por ele, não amor. Não desejei dar-lhe o peito. Não desejei vincular-me a ele com aquele fervor que algumas descrevem. Entramos aqui no 'segundo inferno' desse momento. O momento em que eu morri pela segunda vez - quando meu filho deixou de ser amamentado e passou a tomar LA na maternidade...
Eu não acreditava que teria como amamentá-lo. Por motivos pessoais, fiz uma cirurgia de redução de mamas dois anos e meio atrás e não achava que fosse possível oferecer-lhe nada. Todos acenavam concordando comigo no quarto. Eu, irritada, dizia a plenos pulmões que 'não acreditava que teria nada ali, que a cirurgia havia minado meu plano inicial de dar-lhe o peito', ouvi comentários que não ajudaram em nada e me fechei. Heitor, tendo nascido antes, não teve acesso ao meu 'mini-colostro', que veio a aparecer apenas 72 horas depois. Ali, ele ja havia tomado LA. Depois dessas 72 horas iniciais, ele foi diagnosticado com icterícia, ficando 24horas em banho de luz. O pequeno ficava ali, olhinhos tampados, e só saía para estimular meu peito ou tomar um leite... Como estimular algo que não existia? Como estressá-lo além do que ele já estava passando? (ele chorava bastante de ficar ali vendadinho e parava um pouco no meu colo. além disso, toda vez que eu tentava colocá-lo no peito, ele gritava e chegava a perder o ar. não fechava a boquinha. eu chorava. não sabia como forçar-lhe algo que eu não acreditava que teria.). Houve dois problemas aí: minha descrença e o estresse do Heitor. Meu medo dele ficar hipoglicêmico - o que podia ocorrer dado sua prematuridade - e os três dias já sem nada de estímulo mamário... Essas 72 horas anteriores foram de grande sofrimento para mim, mas também de certa desconexão minha com as necessidades básicas dele. Esse post está sendo difícil, o mais difícil, porque tenho que admitir que não o amava e não lhe desejei a ponto de dar-lhe o peito ali, naquele momento.
Pausa.
Analisemos a minha dificuldade pessoal de estabelecer laços e o pós-parto, já normalmente duro para algumas de nós. As lágrimas me rolavam a face e eu, triste e insegura, pensava apenas em como seria capaz de cuidar daquele pequeno que dependia tanto de mim. Eu estava feliz, não entendam mal. Eu tirava fotos, eu velava o soninho dele e beijava seu rostinho repetidamente. Mas... tentava organizar tudo na minha cabeça e no meu coração. 
Minha história de vida (bem resumidamente), além de ser pautada pela dificuldade de relacionamento com algumas pessoas da minha família, é pautada pelo fato de eu não ter nascido biologicamente da minha mae. De fato, sempre ouvi falar sobre o laço, o vínculo que se forma entre uma mãe e seu filho durante a gravidez e no nascimento (também na amamentação) e acreditava que esse era o motivo para o descompasso entre eu e a minha própria mãe, minha família... Pensava eu, ingenuamente, que esses seriam os únicos modos de estabelecer uma relação de amor fortalecida e que eu não havia tido acesso a nada disso... 
Mesmo que racionalmente eu seja capaz de compreender que o laço-de-sangue é bem relativo, emocionalmente...
Consequentemente... dar o peito ao Heitor traçaria nosso destino. Será? Traçaria nossa relação. Será? Ali, naquele momento, eu tinha certeza que sim. Isso, ao invés de me empurrar em sua direnção, me manteve longe... dispersa... com imenso medo de fazer errado, de prejudicar a 'construção do nosso amor'.
E a culpa?
Ah... a culpa. Após OITO dias apenas tive algo a oferecer ao meu filho que já não mais me desejava. Consultei médicos caros, fonos, bancos de leite, forcei meu filho à exaustão (minha e dele) a pega e nada... A opção seria a translactação. Ok. Não funcionou para mim. Tentei estimular com a bomba para dar-lhe, pelo menos, via mamadeira o que eu estivesse produzindo... Mas, com pouca ajuda em casa (conflitos e mais conflitos me fizeram escolher ficar sozinha com marido e buscar certa paz de espírito), eu não tinha tempo de estimular a cada 3 horas. Não queria. Estava com raiva do mundo. Tive uma infecção intestinal e, cada vez que Heitor solicitava ser alimentado, eu corria pro banheiro e marido corrida em sua direção... Cômico? Não... Triste. Chorei mais ainda e me julguei a pior, A PIOR MÃE DO MUNDO. A MAIS AVANÇADA NA ESCALA DE MONSTRUOSIDADE MATERNA. Como eu podia ter feito isso? Deveria ter deixado Heitor chorar um pouco, sem LA. Deveria ter estimulado eternamente no Hospital. Deveria, deveria, deveria. Não o fiz. Fiz as escolhas que pude naquele momento... Pensando no melhor para ele e, mais importante...
... no melhor que eu poderia oferecer naquele momento, mesmo sendo menos do que ele precisava...
***
O meu melhor.
Essa expressão me acompanha e eu tento viver a altura do meu pitoquinho.
Hoje, acredito que meu amor está maior, crescendo no compasso que tenho aqui no peito - pequenininho, lento, mas funcionando.
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Heitor segue firme e forte e estou, aos poucos, fazendo as pases com o seu nascimento, como tudo aconteceu, comigo mesma, com a minha ignorância e ingenuidade, com a minha indiferença inicial ao maior amor do mundo. Tudo isso só me faz concluir que amor é bem relativo e ninguém sente igual... Nem sei se posso dizer que concluo algo, estou ainda engatinhando com meu filho... e ele me ensina todos os dias que 'ser mãe' é 'ser eu mesma'. 
Eu acho que ele gosta do meu jeito e que a maior lição que posso, um dia, deixar para ele é essa: seja você mesmo e não se maltrate demais. Viver já é difícil sem pressão... Imagina com o peso do mundo inteiro nas costas!
Meu conselho é: Se tiver que carregar um peso grande - use uma mochilinha pra ajudar. ;)
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Mostrando todo meu charme, olhar de modelo

terça-feira, 26 de julho de 2011

assim assim

Sentada no sofá da sala e brincando com o Ipad (meu desejo de consumo realizado por puro impulso e vontade de me fazer um agrado puerperístico) eu penso em como me sinto azul... Completamente.
Seria menos chato se dissessemos "estou passando por um momento de 'azuis neonatais' ou 'azul bebe'"... Mas, deixemos a mentirinha branca de lado... Trata-se do bom e velho baby-blues... E essa cor passou para o topo da minha black-list... Acreditem.

A pessoa estuda ingles para escrever um post besta desse, ne? Entao...

sábado, 23 de julho de 2011

Descobri que

... seleciono bastante o que escrevo sobre meu filho nesse mundão interneteiro. tenho medo de olho gordo. tenho medo de não-amigos que parecem amigos.
... hoje tenho muito mais medo dos olhos gordos e dos não-amigos que parecem amigos.
... hoje tenho muito mais medo de morrer e deixá-lo só, sem mim.
... acredito que só eu consigo satisfaze-lo e só eu sei o que ele precisa, o que lhe faz bem. o resto é resto.
... posto fotos com receio. alguém me ajuda com esse medo virtual?
... não adianta ter com quem desabafar. tem horas que não tenho o que dizer mesmo. bom é ter com quem ficar em silêncio junto.
... não tenho, por enquanto, outra ambição na vida se não a de ser uma boa mãe. a de ser mãe. de me sentir mãe. ainda não me sinto. comassim?? é, isso aí.
... amo meu filho. amo-o simplesmente. e o amor é um sentimento duro, misterioso. aquilo que acontece instantaneamente e que derruba muros por onde passa chama-se paixão. sinto amor. e o amor se contrói. estou construindo o meu. quem me entende levanta a mão. quem não entende, não jogue pedras.
... tem mãe que joga pedra. tem mãe que dá a mão.
... eu quero ser aquela que dá o corpo inteiro, a alma e tudo o mais.

domingo, 17 de julho de 2011

Colaram nimim

Selinho! Ganhei mais um selinho da Sarah, mamãe lindona do Bento cremosíssimo!
Para descontrair um tiquinho, resolvi postar hoje...
Olha que graça!
Regrinhas:
1 - Falar do blog que eu ganhei: Ah, essa é fácil! A Sá é amiga de longa data, néam?? Coisa fofa mesmo, amigona. O blog dela é inspirados, ao menos para mim, mãe tão inexperiente de um pitiquinho de 22 dias de vidinha... Ela conta peripécias do pequeno Bento e questionamentos corajosos dela como mãe. Adoro!
2 - Falar o que mais gosta do blog e de quem ganhou o selinho: Eu adoro as atualizações a respeito da linguagem do Bento! A Sarah mantém uma lista de 'Bentês', vocabulário próprio do Bento que ela registra com o maior carinho. Demais! É, sem dúvida, a minha parte preferida do blog. Agora, o que mais gosto na Sarah-pessoa-blogueira... Gente, gosto de tanta coisa! Vamos ver... Eu adoro seu sorriso e seu modo de expor seus pensamentos! Ela escreve muuito bem! Adoro, amiga!
3 - Indicar o selinho para sete blogueiras/os:
Difícil, hein??
Vamos ver se eu consigo somar sete:
(nene acordou e abortei a missão. logo volto para atualizar!)

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Lugar-comum

Tudo que penso em escrever hoje, pós-Heitor, parece que já li por aí em blogs de mamães mais experientes do que eu. Eu estou adentrando o lugar-comum da maternidade tão único, porém, tão visitado e revisitado por muitas de nós - mulheres do mundo moderno, nénaum? A gente pensa, repensa, mexe e remexe na caixa de Pandora de nós mesmas. Os nossos medos estão ali e a gente publica lições de como lidar com eles; lições de como ser engolidas por eles e etc. E a coisa vai caminhando assim... Comum e única. De tão comum, chega a ser complexa. 
E a ambiguidade anda comigo/conosco e eu não me canso de pensar em como estou confusa, amedrontada, frustrada e completamente feliz. Nunca em meus 27 anos de bipolaridade quase obsessiva eu me vi em tamanho redemoinho de sensações.
Daí que o povo pergunta: "E aí??? Tá feliz??" - Feliz é uma palavra tão pequena para descrever tudo isso... E o povo me olha com cara de paisagem. E o povo pergunta, ainda "E aí?? Tá curtindo??" e eu ensaio responder um "Não", mas me contenho com medo de ser julgada uma mãe sem coração de um serzinho tão puro e ingenuo como meu filho, uma criança linda de 20 dias de vida.
Sim.
Hoje ele completa 20 dias.
Eu me surpreendo horrores em como o tempo passa depressa e como eu me sinto fora do mundo. A vida passa na minha frente e eu pareço estar fora dela. Vendo tudo rolar de cima de um muro, de um telhado, fora do palco. Não sou mais protagonista, ao menos não por enquanto, e me dou conta de que uma das lições da maternidade é doar-se cega e incondicionalmente & humildemente retirar-se do foco principal de iluminação da vida.
A vida. Essa nova vida que hoje respira fora de mim, se contorce, tem expressões faciais tão peculiares e emite sons distintos dos que eu jamais ouvi me enche o coração de amor e os olhos de lágrimas. Algumas são bem doídas, confesso. Muitas vezes, eu me vejo falando para ele coisas sem sentido, como "Filho, me fala o que você quer, não consigo entender você". Como assim 'me fala'?? Juro que, do jeitinho dele, ele tenta. E a gente vai aprendendo a aprender um com o outro. Depois de um longo choro dele, minha sensação é de impotência, frustração por não compreendê-lo... Se, depois do choro, ele dorme no meu colo, a sensação passa a ser recheada com caramelo e chocolate suíço e morangos silvestres. Juro.

Sei lá porquê um poeminha de Manuel Bandeira não sai da minha cabeça. Eu lembro, inclusive, da aula da faculdade em que o estudei e de algumas das palavras do professor de Análise Literária: "É até ambíguo caracterizar a ambiguidade da vida. É redundante dizer que o chocolate é doce."

Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação...

Assim eu quereria que fosse meu NOVO poema; que a minha vida hoje fosse descrita como a ternura das coisas simples, a chama do soluço sem lágrimas, a beleza das flores sem o perfume tão óbvio, a pureza do fogo e a paixão que faz a gente questionar cada novo dia que nasce...