...ou... confissão sobre a construção do meu amor materno.
...ou... inseguranças e dores pós-parto.
...ou... momento 'desabafo' sem espaço para julgamentos.
...ou... post longo pra cacete.
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Vamos lá. Eu pensei e pensei demais antes de escrever esse post. Aliás, eu o escrevi mentalmente diversas vezes, organizei vários rascunhos, tive dúvidas sobre publicar tudo isso aqui ou simplesmente deixar passar, e finalmente decidi publicar. Por quê? Porque é importante para mim, para que eu possa fazer as pases com algumas escolhas nessa minha curta jornada pela maternidade. Para que eu possa fazer as pases comigo mesma e seguir em frente. Preciso. Preciso escrever e ler e acreditar que fiz o melhor que pude desde o dia zero até hoje e que meu filho, sendo meu anjinho precioso, merece esse melhor de mim.
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Heitor nasceu
antes do previsto e tudo foi bem corrido. Nada organizado. Bem a minha cara. Típico. Minha vida condiz com essa classe de acontecimento e com meu filho não poderia ser diferente. Mas, eu me frustrei. Essa foi a primeira frustração da minha breve atuação como mãe e posso dizer que foi quando fui pro inferno a primeira vez, como diria Renato Russo. Foi a primeira ruptura entre o que eu havia idealizado e o que havia, de fato, ocorrido. Eu nunca fui obcecada por Parto Normal. Nunca fui obcecada por Cesariana. Nunca fui extremista. Acreditava no meu médico e ele acreditava em nós, de modo que eu desejava apenas que Heitor estivesse pronto para nascer, ou seja, queria entrar em trabalho de parto. Meu filhinho estaria pronto, e então veríamos como proceder. Não rolou. Esse 'primeiro inferno' foi o pensamento de que meu filho seria retirado do seu cantinho antes do tempo, assim, na marra, sem preparo para ele e nem para mim. Morri ali, às 15:19hrs do dia 24/06, quando ele nasceu. Eu chorei quando ele veio ao mundo e o beijei com carinho, mas não senti amor. Talvez pela anestesia, talvez pela ansiedade e medo de que algo desse errado. Chorei de alívio e ele estava entre nós finalmente.
As horas seguintes foram turbulentas. Tive conflitos com a minha mãe, que deu conselhos e fez comentários que corroboraram para as escolhas que fiz a seguir também. Tive conflitos comigo mesma. Chorei demais. Sofri. Estava anestesiada na alma também. Enquanto meu filho foi levado para longe para que exames fossem realizados e aquela coisa toda, eu não senti sua falta. Não o desejei. Não pensava nele. Não pensava nem em mim. Talvez quem esteja lendo, chegue nessa parte e diga 'certeza que ela sentiu tudo isso - ou não sentiu - por causa da cesariana'. Não. Não acho. O parto foi ok, tudo lindo. Não achei a pior coisa do mundo, não achei desumano demais como li por aí e nem feriu meus sentimentos de mãe o fato específico de ter feito uma cirurgia para que meu filho pudesse nascer. A frustração foi a idéia dele não estar preparado e sofrer além do necessário, porque a ruptura ao nascer é 'de praxe' mesmo, eles tem de passar por isso.
E ele passou com louvor.
Nasceu lindo, perfeito e grande. Apesar da prematuridade (36 semanas e 4 dias), não ficou em UTI, não teve desconforto respiratório, nada grave.
Quando ele chegou até mim, no quarto, eu o peguei no colo e beijei-lhe a face vermelhinha, mas algo estava faltando ainda em meu coração. Eu não o amava ainda 'como deveria'. Como deveria? É. Eu comprei a idealização do amor instantâneo pós-parto e carreguei-a comigo sem nem me dar conta. O resultado foi uma mãe frustrada novamente, dessa vez por não corresponder a suas próprias expectativas sentimentais (eu havia esquecido que amor não tem padrão, cada um sente como deve sentir e pronto).
Já disse antes que sou lenta para demonstrar sentimento. Isso se deve ao modo como fui criada e a minha personalidade mesmo, claro. Quando Heitor foi levado ao meu quarto, eu senti carinho por ele, não amor. Não desejei dar-lhe o peito. Não desejei vincular-me a ele com aquele fervor que algumas descrevem. Entramos aqui no 'segundo inferno' desse momento. O momento em que eu morri pela segunda vez - quando meu filho deixou de ser amamentado e passou a tomar LA na maternidade...
Eu não acreditava que teria como amamentá-lo. Por motivos pessoais, fiz uma cirurgia de redução de mamas dois anos e meio atrás e não achava que fosse possível oferecer-lhe nada. Todos acenavam concordando comigo no quarto. Eu, irritada, dizia a plenos pulmões que 'não acreditava que teria nada ali, que a cirurgia havia minado meu plano inicial de dar-lhe o peito', ouvi comentários que não ajudaram em nada e me fechei. Heitor, tendo nascido antes, não teve acesso ao meu 'mini-colostro', que veio a aparecer apenas 72 horas depois. Ali, ele ja havia tomado LA. Depois dessas 72 horas iniciais, ele foi diagnosticado com icterícia, ficando 24horas em banho de luz. O pequeno ficava ali, olhinhos tampados, e só saía para estimular meu peito ou tomar um leite... Como estimular algo que não existia? Como estressá-lo além do que ele já estava passando? (ele chorava bastante de ficar ali vendadinho e parava um pouco no meu colo. além disso, toda vez que eu tentava colocá-lo no peito, ele gritava e chegava a perder o ar. não fechava a boquinha. eu chorava. não sabia como forçar-lhe algo que eu não acreditava que teria.). Houve dois problemas aí: minha descrença e o estresse do Heitor. Meu medo dele ficar hipoglicêmico - o que podia ocorrer dado sua prematuridade - e os três dias já sem nada de estímulo mamário... Essas 72 horas anteriores foram de grande sofrimento para mim, mas também de certa desconexão minha com as necessidades básicas dele. Esse post está sendo difícil, o mais difícil, porque tenho que admitir que não o amava e não lhe desejei a ponto de dar-lhe o peito ali, naquele momento.
Pausa.
Analisemos a minha dificuldade pessoal de estabelecer laços e o pós-parto, já normalmente duro para algumas de nós. As lágrimas me rolavam a face e eu, triste e insegura, pensava apenas em como seria capaz de cuidar daquele pequeno que dependia tanto de mim. Eu estava feliz, não entendam mal. Eu tirava fotos, eu velava o soninho dele e beijava seu rostinho repetidamente. Mas... tentava organizar tudo na minha cabeça e no meu coração.
Minha história de vida (bem resumidamente), além de ser pautada pela dificuldade de relacionamento com algumas pessoas da minha família, é pautada pelo fato de eu não ter nascido biologicamente da minha mae. De fato, sempre ouvi falar sobre o laço, o vínculo que se forma entre uma mãe e seu filho durante a gravidez e no nascimento (também na amamentação) e acreditava que esse era o motivo para o descompasso entre eu e a minha própria mãe, minha família... Pensava eu, ingenuamente, que esses seriam os únicos modos de estabelecer uma relação de amor fortalecida e que eu não havia tido acesso a nada disso...
Mesmo que racionalmente eu seja capaz de compreender que o laço-de-sangue é bem relativo, emocionalmente...
Consequentemente... dar o peito ao Heitor traçaria nosso destino. Será? Traçaria nossa relação. Será? Ali, naquele momento, eu tinha certeza que sim. Isso, ao invés de me empurrar em sua direnção, me manteve longe... dispersa... com imenso medo de fazer errado, de prejudicar a 'construção do nosso amor'.
E a culpa?
Ah... a culpa. Após OITO dias apenas tive algo a oferecer ao meu filho que já não mais me desejava. Consultei médicos caros, fonos, bancos de leite, forcei meu filho à exaustão (minha e dele) a pega e nada... A opção seria a translactação. Ok. Não funcionou para mim. Tentei estimular com a bomba para dar-lhe, pelo menos, via mamadeira o que eu estivesse produzindo... Mas, com pouca ajuda em casa (conflitos e mais conflitos me fizeram escolher ficar sozinha com marido e buscar certa paz de espírito), eu não tinha tempo de estimular a cada 3 horas. Não queria. Estava com raiva do mundo. Tive uma infecção intestinal e, cada vez que Heitor solicitava ser alimentado, eu corria pro banheiro e marido corrida em sua direção... Cômico? Não... Triste. Chorei mais ainda e me julguei a pior, A PIOR MÃE DO MUNDO. A MAIS AVANÇADA NA ESCALA DE MONSTRUOSIDADE MATERNA. Como eu podia ter feito isso? Deveria ter deixado Heitor chorar um pouco, sem LA. Deveria ter estimulado eternamente no Hospital. Deveria, deveria, deveria. Não o fiz. Fiz as escolhas que pude naquele momento... Pensando no melhor para ele e, mais importante...
... no melhor que eu poderia oferecer naquele momento, mesmo sendo menos do que ele precisava...
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O meu melhor.
Essa expressão me acompanha e eu tento viver a altura do meu pitoquinho.
Hoje, acredito que meu amor está maior, crescendo no compasso que tenho aqui no peito - pequenininho, lento, mas funcionando.
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Heitor segue firme e forte e estou, aos poucos, fazendo as pases com o seu nascimento, como tudo aconteceu, comigo mesma, com a minha ignorância e ingenuidade, com a minha indiferença inicial ao maior amor do mundo. Tudo isso só me faz concluir que amor é bem relativo e ninguém sente igual... Nem sei se posso dizer que concluo algo, estou ainda engatinhando com meu filho... e ele me ensina todos os dias que 'ser mãe' é 'ser eu mesma'.
Eu acho que ele gosta do meu jeito e que a maior lição que posso, um dia, deixar para ele é essa: seja você mesmo e não se maltrate demais. Viver já é difícil sem pressão... Imagina com o peso do mundo inteiro nas costas!
Meu conselho é: Se tiver que carregar um peso grande - use uma mochilinha pra ajudar. ;)
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| Mostrando todo meu charme, olhar de modelo |